19 março 2009

Copinha - Jubileu de Ouro (1975)

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CopinhaCopinha era filho de italianos e tinha oito irmãos, todos eles músicos. Seu primeiro professor de flauta foi Vicente, irmão mais velho. E, nas serenatas e rodas de choro de São Paulo, iniciou-se no jeito de tocar em grupo, solar e acompanhar.

"Eu comecei a estudar com 7 anos de idade, em 1917. Mas estudava direito, estudava música primeiro. Hoje a gurizada pega um instrumento e vai tocar de ouvido. Estudei música, solfejo, depois mais tarde harmonias, essa coisa toda. Com 9 anos é que eu peguei a flauta. Com nove anos eu já fazia serenata com o Canhoto [Américo Jacomino]. Toquei muitas vezes. Ele gostava e dizia: 'Esse garoto é bom'."

Antes dos 20 anos de idade, dominava também o clarinete e o saxofone, que aprendera no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Embora Copinha tocasse também clarinete e saxofone, o seu instrumento de preferência, e o que mais utilizou durante toda a carreira, foi a flauta. O que caracteriza Copinha, além da evidente qualidade técnica e musical, é a capacidade de se adaptar a uma enorme variedade de estilos.

Não existe uma "flauta" de Copinha, que se imponha de maneira uniforme independentemente do que e com quem esteja tocando; porém tampouco falta personalidade à sua execução, pois alguns traços estão presentes em todas as suas intervenções: a limpeza do som, o estilo chorado, a economia de notas e, acima de tudo, a interação com os outros instrumentos ou com a voz – a flauta de Copinha está sempre integrada ao conjunto sonoro, e mesmo quando sola não ignora o acompanhamento.

Não existe melhor maneira de perceber tudo isso do que ouvir sua atuação com João Gilberto e, depois, com Paulinho da Viola. Escutar os discos "Chega de Saudade" e, em seguida, "Nervos de Aço".

Apesar de sua discrição e de seu papel de acompanhante, Copinha era respeitado pelos grandes músicos. A ponto de Hermeto Pascoal, um músico em tudo e por tudo diferente, cuja flauta soa no mais das vezes nervosa, "suja", agressiva, ter homenageado o colega com a composição "Salve, Copinha" (gravada no disco "Brasil Universo").

Copinha tem menos de 20 composições gravadas, a maioria nos seus próprios discos. São quase todas obras tradicionais, românticas, típicas das serestas. O compositor Copinha viveu no segundo plano em relação ao músico, pelo menos no que se refere às gravações.

A originalidade de arranjador de Copinha não deve ser procurada nos discos orquestrais e sim, principalmente, em três discos de Paulinho da Viola para os quais escreveu os arranjos: "Nervos de Aço", "Memórias Cantando" e "Memórias Chorando" – dois discos de canções e um disco instrumental.

Sem prejudicar em nada o balanço e o sincopado dos sambas e choros que Paulinho escreveu ou interpreta, Copinha cria um ambiente camerístico no qual cada músico tem seu papel mas, também, a sua liberdade. Há um jogo de som e silêncio, tanto de cada instrumento isolado quanto do grupo como um todo. Instrumentos que se emparelham de maneira imprevista e original. E divisões surpreendentes – como nos contracantos de "Comprimido".

"Interessante a maneira com a qual Copinha combina os instrumentos aqui: bateria (vassourinha), baixo, violão sete cordas [Raphael Rabello] e flauta. Copinha, neste arranjo, mostra como era a vanguarda no choro. Como Paulo Moura, tem uma visão bem livre dos arranjos, com poucas sinalizações, mas fundamentais". (Hélio Amaral)

O disco a que se faz referência aqui é "Bonfiglio de Oliveira Interpretado por Copinha e seu Conjunto". Ao rever a música de um antigo compositor de choro, mais uma vez Copinha preserva o essencial da tradição mas não despreza a modernidade, como na junção do contrabaixo com o violão de sete cordas.

Copinha teve duas carreiras distintas: a das orquestras e grandes conjuntos, e a de instrumentista em pequenos grupos, ou acompanhando grupos e cantores. Ambas foram longas, intensas, e produziram resultados muito distintos. Começou a carreira profissional em 1934, como flautista, fazendo fundo para filmes mudos em cinemas de São Paulo e tocando em programas de rádio, quando teve a oportunidade de se apresentar com os violonistas Garoto e Armandinho.

Mas logo deu início à criação de orquestras, principiando pela Orquestra Irmãos Cópia, sob a liderança do irmão mais velho, Vicente; depois,"Juca e seus rapazes"; e, mais adiante, a orquestra do Maestro Gaó (Orquestra Colúmbia), em apresentações nas rádios paulistas.

Com Gaó, ainda na década de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tocou em boates, cabarés (com Pixinguinha, no Dancing Eldorado), teatros e cassinos; com a orquestra de Simon Boutman, no Cassino do Copacabana Palace; Carlos Machado, no Cassino da Urca; e Paul Morris, no Quitandinha, em Petrópolis.

Com vocação de andarilho, desde a década de 1930 empreendeu um ciclo de viagens internacionais que se estendeu até o final da vida, sozinho, em grupos, como músico de orquestras ou maestro.

Corria a década de 1940, e Copinha criou a primeira orquestra sob sua liderança, chamada inicialmente de Cópia e sua Orquestra. Com ela, ao longo de quase 20 anos, tornou-se um dos principais acompanhantes de cantores como Sílvio Caldas, Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, Cyro Monteiro, Dircinha Batista, Aracy de Almeida, Orlando Silva e Dorival Caymmi.

Em 1958, recebeu em sua orquestra um músico nordestino que viria a fazer história na música brasileira: Hermeto Pascoal mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro a fim de tocar acordeom na Orquestra do Maestro Copinha, que então se apresentava no Hotel Excelsior. E, no mesmo ano, juntou-se à orquestra o pianista acreano João Donato, durante uma temporada no Hotel Copacabana Palace.

A partir da década de 1960, tornou-se um dos mais requisitados músicos de estúdio e de shows do Brasil. O espaço das orquestras rareava pela soma das novas tendências da música com o alto custo necessário para mantê-las. E Copinha afastou-se aos poucos, primeiro desmobilizando sua própria orquestra para trabalhar nas orquestras da TV Tupi e, depois, da Rede Globo e, por fim, praticamente abandonando os grupos orquestrais.

São raros os cantores e compositores de primeira linha da música brasileira, a partir da década de 1960, que não tenham contado com Copinha e seus instrumentos de sopro – particularmente a flauta. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Cartola e Ivan Lins são apenas alguns deles.

É de Copinha a flauta que se ouve na famosíssima introdução de "Chega de Saudade", que abre o primeiro LP homônimo de João Gilberto, com arranjos de Tom Jobim. Assim como é de Copinha a flauta que acompanha João em outras faixas do mesmo LP.

Copinha toca flauta em "Canção do Amor Demais", de Elizete Cardoso, considerado um dos marcos iniciais da bossa nova. São dele os sopros em grande parte dos discos de carreira de Paulinho da Viola.


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CopinhaAn active sideman for recording sessions, Copinha accompanied the stars Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Nuno Roland, Rui Rei, and many others in the Golden Age of song (between the '30s and '40s). During the bossa nova years (late '50s to early '60s), he accompanied Elizeth Cardoso, João Gilberto (since his first album), and other icons of the movement. He recorded Pierre Barouh's score for the famous film Un Homme et une Femme, together with Baden Powell, Milton Banana, and the Castro-Neves brothers: Oscar and Iko. From the '70s to the '80s, he was a sideman for Caetano Veloso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Gilberto Gil, and others. He also had international success with his solo work, which was ahead of his own orchestra.

Born the seventh son of Italian immigrants, he began his musical studies at age nine with his older brother, Vicente Cópia (all his brothers were musicians). Taking up the flute, he became a professional in 1924, accompanying silent movies until the advent of sound in 1930. In 1928, he took up the clarinet and the saxophone and played around a lot. In 1930, he performed several times for Rádio Paulista, accompanied by Garoto. His first album was recorded in that year, together with Garoto, Aimoré, Armandinho (all violonistas [acoustic guitar players]), and singer Moreira da Silva.

CopinhaWith his brothers and nephews, he organized the Orquestra Irmãos Cópia (who played regularly until 1934), where crooners like Rui Rei, Nuno Roland, and Grande Otelo performed. Completing an engineering degree at a university, he worked for some time in that profession, but never abandoned his busy schedule as a musician. In 1931, he joined the quartet of Spartaco Rossi on their tour of Germany. In 1932, he accompanied famous singers Mário Reis and Francisco Alves. In 1933, he performed at Rádio Cruzeiro do Sul with Maestro Gaó's Orquestra Columbia, joining them regularly between 1937 and 1939.

Expanding his activities to Rio de Janeiro in 1936, he was hired by Rádio Ipanema and played with Pixinguinha at the Eldorado gafieira. He was an active sideman during the '30s and '40s. From 1939 to 1943 he joined the orchestra of Simon Bountman, and from 1944 to 1946 he performed with the orchestra of Carlos Machado at the Cassino da Urca, playing also in other casinos. His own orchestra was formed in 1946; they performed until 1959 at the Casino of the Copacabana Palace Hotel. In that period, coinciding with the inception of bossa nova, several of the important names of the movement joined his orchestra or were accompanied by them, such as João Gilberto, João Donato, Milton Banana, and many others. In 1958, after having accompanied Elizeth Cardoso on the historic album where bossa nova was launched (Canção do Amor Demais), he was invited by Tom Jobim to appear on the debut album of João Gilberto. In the bossa nova period, he continued his active participation as a sideman in recordings. In 1966, he performed in Monaco with his orchestra, Copinha do Rio. In 1967, he teamed with pianist Dom Salvador, drummer Chico Batera, and bassist Sérgio Barroso, playing in Miami, Dallas, and Minneapolis (U.S.A.). His 50-year career was commemorated with the recording of the LP Jubileu de Ouro (Som Livre), in July 1975.

Alvaro Neder - extracted from All Music Guide

4 comentários:

mvcosta disse...

Copinha - "Jubileu de Ouro" (1975 - Som Livre 403.6069)

1. Urubatan
(Pixinguinha / Benedito Lacerda)

2. Primavera / Chega de Saudade / Samba de uma Nota Só
(Carlos Lyra / Vinicius de Moraes) / (Tom Jobim / Vinicius de Moraes) / (Tom Jobim / Newton Mendonça)

3. Saia do Caminho
(Custódio Mesquita / Ewaldo Ruy)

4. Cadência
(Joventino Maciel)

5. Reconciliação
(Copinha)

6. Lambada
(Copinha)

7. Por um Beijo
(Anacleto de Medeiros / Catulo da Paixão Cearense)

8. Kalú / Derramaro o Gai / Trepa no Coqueiro / Chegando Mais / Agora É Cinza / O Orvalho Vem Caindo / Apito no Samba
(Humberto Teixeira) / (Luiz Gonzaga / Zé Dantas) / (Ary Kerner) / (Luiz Bandeira / Távora Fernando) / (Bide / Marçal) / (Noel Rosa / Vadico) (Luiz Bandeira)

9. Naquele Tempo
(Pixinguinha / Benedito Lacerda)

10. Primeiro Amor
(Pattapio Silva)

11. Notícia
(Nelson Cavaquinho / Nourival Bahia / Alcides Caminha)

12. Mariana
(Paulinho da Viola)


Copinha: flauta, flautim, saxofone tenor, saxofone alto, clarinete
Luiz Bandeira: voz
Nora Ney: voz
Cesar Faria: violão
Chiquito Braga: violão, guitarra
Paulinho da Viola: cavaquinho
Radamés Gnattali: piano
Cristóvão Bastos: piano
Eduardo Lages: piano
Pinduca: vibrafone
Luizão Maia: baixo
Aldo Vale: baixo
Dininho: baixo
Jayme Araújo: saxofone alto, clarinete
Paulo Moura: saxofone alto
Bijú: saxofone alto
Cássio Loredano: saxofone tenor
Zé Bodega: saxofone tenor, clarone
Genaldo Medeiros dos Santos: saxofone barítono
Netinho: saxofone barítono
Cunhado: trompete
Formiga: trompete
Maurílio da Silva Santos: trompete
Hamilton Pereira Cruz: trompete
Odilon Caldeira: trompete
Edmundo Maciel: trombone
Waldemar Moura: trombone
Manuel Araújo: trombone
Flamarion: trombone baixo
Paulo Tuba: bombardino
Pascoal Meirelles: bateria
Wilson das Neves: bateria
Geraldo Walter: bateria
Ariovaldo Contesini: ritmo
Hermes Contesini: ritmo
Dom Chacal: ritmo
Jorginho do Pandeiro: ritmo
Sérgio Mello: ritmo

Aizik Meilach Geller: violino
Alfredo Vidal: violino
André Charles Guetta: violino
Giancarlo Pareschi: violino
Marcelo Pompeo: violino
Nathercia Teixeira da Silva: violino
Ricardo Benício de Abreu: violino
Ricardo Wagner: violino
Robert Eduard Jean Arnaud: violino
Adolpho Pissarenko: viola
Arlindo Figueiredo Penteado: viola
Alceu de Almeida Reis: violoncelo
Márcio Eymard Mallard: violoncelo
Gabriel Bezerra de Melo: contrabaixo

Arranjadores: Copinha, K-Ximbinho, Radamés Gnattali e Waltel Branco

Produzido por João Araújo e Elton Medeiros

Anônimo disse...

Rapaz, esse disco é raro, procurei muito tempo mesmo, e agora estou ouvindo e saboreando com grande prazer. O balanço de Copinha em "Cadência" é de matar. É aí que a gente vê como o cara tocava mesmo. Muito obrigado pelo presentão. Abraço!
Hélio

Carne de gato II - a missão disse...

o Maestro Copinha , sempre surpreendendo Estou atrás deste disco já faz muito tempo dácadas precisamente...O brigado meu irmão maravilhosa contribuição de teu blog para os ávidos em MPB.Gracias.

regules disse...

Siempre disfruto la musica brasileña, y lo hare ahora mismo con Copinha. Gracias

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