06 abril 2006

Trio 3-D - O Trio 3-D Convida (1965)

Capa do disco
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Antônio AdolfoFruto da “febre dos trios” característica da segunda fase da bossa nova, quando uma geração de instrumentistas da mais alta impedância e estirpe passou a reinar no Beco das Garrafas, em contraponto estético à leveza da bossa “peso-pluma” (nas palavras de Ruy Castro) de Jobim, Bonfá & João Gilberto, o Trio 3D representou um marco na carreira de seu fundador, o carioca Antonio Adolfo Maurity Sabóia. Nascido em 10 de fevereiro de 1947, estudou no Conservatório de Música Lorenzo Fernandes, passando a frequentar o Bottle’s Bar e o Little Club a partir de 1963, integrando o grupo Samba Cinco.

Chamado para atuar na banda de apoio do musical “Pobre Menina Rica”, de Carlos Lyra, durante a temporada no Teatro de Bolso, formou o Trio 3D, em dezembro de 63. Contratado pela RCA em 1964, o conjunto debutou no LP “Tema 3D”, com Nelson Serra e Dom Um Romão revezando na bateria, o argentino Catcho Pomar domando o contrabaixo, o hoje esquecido Arisio dando canja no violão, e Claudio Roditi – agora reconhecido como um dos melhores trompetistas do mundo, segundo os leitores da revista Down Beat em 2000 - entrando pela primeira vez em um estúdio de gravação, na provecta idade de 17 anos.

Neste segundo disco para a RCA, “Trio 3D Convida”, lançado em abril de 1965, Adolfo ampliou a fórmula do LP anterior, convocando seis feras para contribuições especiais. Outro talento precoce, Eumir Deodato, já com curriculo de veterano aos 22 anos, assinou brilhantes arranjos para “Só Tinha de Ser Com Você” e “Peter Samba”, empregando um potente naipe de sopros. Na verdade, um quarteto formado, simplesmente, pelos dois melhores trombonistas na história da música brasileira - Edson Maciel e Raul de Souza - e por dois dos nossos melhores saxofonistas, João Theodoro “JT” Meirelles e Paulo Moura.

O contrabaixo foi entregue ao niteroiense Carlos Monjardim, ainda hoje ativo na noite paulistana, parente distante da cantora Maysa, sideman de Wilson Simonal nos tempos do Top Club, uma boate situada na praça do Lido. E a bateria ficou a cargo de Nelson Serra de Castro, carioca que, depois do 3D, trabalhou ao lado de Dom Salvador (piano) e Manuel Gusmão (baixo) no trio que acompanhava Elis Regina em programas dirigidos por Carlos Manga na TV Excelsior. Mais tarde, atuou na França com Meirelles, Fernando Martins e Edson Lobo. Tocava com Osmar Milito na casa noturna 706 quando, vítima de um desastre de motocicleta, faleceu prematuramente em fins dos anos 70.

Nas seis faixas do “lado A” do LP, atua apenas o trio. A faixa de abertura, “Água de Beber” (Jobim), tratada de forma grandiloquente em rebuscado arranjo, com várias alternâncias de andamento, deixa transparecer a nítida influência do Zimbo Trio, surgido um ano antes em São Paulo. Não menos intrincado, o tratamento dispensado a “My Heart Stood Still”, standard de Richard Rodgers & Lorenz Hart, popularizado por jazzistas do porte de Bill Evans, Chet Baker & Dave Brubeck, também passa por diferentes moods. Depois de uma longa introdução, com Monjardim usando o arco e Nelson Serra aderindo às baquetas de feltro, o trio mergulha num balanço a mil por hora, permitindo a Adolfo demonstrar a apurada técnica lapidada nos estudos de piano clássico. Ecos de Hamilton Godoy e também de Oscar Peterson voltam a se manifestar na versão de “Reza”, de Edu Lobo, abrigando criativa performance do baixista Monjardim.

Dois temas de Marcos Valle ensejam performances irretocáveis: a bossa-balada “Preciso Aprender A Ser Só”, acelerada na medida certa para escapar do romantismo meloso, e o samba “Batucada Surgiu” (recentemente redescoberto por DJs da cena dancefloor-jazz depois da gravação de Towa Tei no “Future Listening!” de 95), ralentado e revirado harmonicamente no melhor arranjo de Adolfo no disco. Igualmente arrojada e surpreendente, a recriação de “Tamanco no Samba” - gravado pelo Tamba 4 como “Samba Blim” - confirma as excepcionais qualidades do líder como arranjador. O tema de Orlandivo, volta e meia tratado, inclusive pelo próprio autor, como sambinha corriqueiro, se transforma em samba-jazz de alta densidade, abrigando evoluções poliritmicas de Nelson Serra a la Elvin Jones.

JT MeirellesOs convidados surgem nas faixas do “lado B”. Edson Maciel desliza seu trombone de vara, pela bela melodia de “Primavera” (Carlos Lyra), em atmosfera de intenso lirismo mas nada açucarada, enquanto Raul de Souza, que três meses antes havia lançado seu disco-solo “À Vontade Mesmo” pela RCA, conta “um, dois, três” antes de esbaldar-se no trombone de válvula em “Bye Bye Blackbird”, aprontando solo de estonteante fluência. Meirelles (líder do Copa 5) mostra sua classe no sax-tenor no sambop “Tema 3D”, única composição de Adolfo incluida no repertório. E Paulo Moura, no sax-alto, destrincha “O Passarinho”, obscura parceria de Chico Feitosa & Lula Freire, encaixando explícita referência a “Take Five”.

A constelação de astros aparece reunida em duas faixas, cujos arranjos foram sabiamente confiados ao gênio Eumir Deodato: “Só Tinha de Ser Com Você” (o tema de Jobim gravado um ano antes por Eumir, em clima bem mais dark, em seu LP de estréia, “Inútil Paisagem”, e por ele novamente regravado para a trilha do filme “Bossa Nova” em 1999), e “Peter Samba”, swingada colaboração de Durval Ferreira & Mauricio Einhorn. Graças a genialidade de Eumir na arte da orquestração, o quarteto de sopros soa como uma big-band! Sequência dos solos: Maciel, Moura, Raulzinho, Meirelles e Adolfo.

Grafado na capa como 3D Trio, o grupo participou em outubro de 65, dividindo o palco com Pedrinho Mattar, Jongo Trio e Gilberto Gil, do “4º Festival do Balança – O Maior Som Universitário do Brasil”, lançado pela RCA em 66. Ainda na RCA, acompanharam de Eliana Pittman (“Minha Melhor Melodia”) a Wilson Miranda (“Tempo Novo”). Novelli passou a ser o baixista, e Vitor Manga, o baterista. Alterando mais uma vez o nome, desta vez para Conjunto 3D, fazendo um som bem nos moldes do “Brasil 66” de Sergio Mendes, saiu em 1967 o álbum “Muito na Onda” (Copacabana), que marcou a estréia discográfica do guitarrista Helio Delmiro, acoplado à base formada por Adolfo, Gusmão e Nelson Serra, e às vozes de Beth Carvalho & Eduardo Conde.

Em 1968, ainda com o 3D, o pianista marcou presença no LP “Isto É Musicanossa!”, do selo Rozenblit, ao lado de Mario Telles, Johnny Alf, Gaya, Menescal e o Sexteto Contraponto. Aderiu à Turma da Pilantragem, comandando o grupo Antonio Adolfo & Asseclas Musicais nos três discos que o pseudo-movimento liderado por Carlos Imperial, Wilson Simonal e Nonato Buzar gravou para a Polydor entre 68 e 69. Logo depois, Adolfo obteve sucesso comercial ainda maior com seu grupo A Brazuca, gravando dois LPs para a Odeon, faturando prêmios em festivais, e emplacando sucessivos hits em parceria com Tibério Gaspar como “Sá Marina” (sucesso internacional sob o título “Pretty world”), “Juliana”, Teletema” e “BR-3”.

Continuou trilhando peculiar caminho pela MPB nas três últimas décadas, tornando-se um dos pioneiros na luta pela abertura de mercado para os discos independentes (a partir do “Feito em Casa”, de 77, seguido por “Encontro Musical” e “Viralata”), desenvolvendo sólido trabalhado como educador (inclusive no exterior, como membro da IAJE), e dedicando-se às releituras das obras de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e João Pernambuco. Mas jamais retornando à estética bossanovista do Trio 3D. Motivo extra para que o relançamento deste disco singular seja amplamente celebrado.


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Raul de SouzaWhen people think of Brazilian jazz in the '60s, the first thing that comes to mind is bossa nova — a caressing, subtle, laidback blend of cool jazz and samba. But not all of the Brazilian jazz from that decade is bossa nova. Some Brazilian improvisers were influenced by the more aggressive and extroverted sounds of hard bop. They respected Stan Getz' legendary work with João Gilberto and Antonio Carlos Jobim, but they preferred a tougher, more hard-swinging style of Brazilian jazz. They identified with the forcefulness of Phil Woods, Cannonball Adderley, Horace Silver, and Art Blakey's Jazz Messengers, rather than the subtle introspection of Chet Baker and Lee Konitz. In the '60s, Brazil's hard boppers included trombonist Raul de Souza and 3-D, which consisted of pianist Antonio Adolfo, bassist Carlos Monjardin, and drummer Nelson Serra De Castro. Raul de Souza isn't actually the leader on Convida; this is really a 3-D album, and Raul de Souza is among the guest soloists (who also include tenor saxman J.T. Meirelles, and alto saxman Paulo Moura). But because the underexposed Raul de Souza hasn't recorded nearly as often as he should have, his admirers will want to hear Convida, which has never been released in the United States. Convida originally came out on LP in Brazil in 1965, and in 2002, RCA's Brazilian division finally reissued it on CD. Although Raul de Souza has some inspired guest spots, the main soloist is Adolfo — a lyrical yet exuberant pianist with a strong Red Garland influence. Adolfo also inspires comparisons to Wynton Kelly and Tommy Flanagan, and he favors a passionate hard bop/samba blend on Brazilian songs as well as a few American standards. Jazz enthusiasts who don't live in Brazil would do well to search for import copies of this excellent CD.

by Alex Henderson - extracted from AMG

2 comentários:

db disse...

great music!
check out
calisoulbrother records
for rare soul, jazz, funk, brazil & latin records!

mvcosta disse...

Trio 3-D - "O Trio 3-D Convida" (1965 - RCA BBL-1332)

1. Água de Beber
(Antonio Carlos Jobim - Vinícius de Moraes)

2. My Heart Stood Still
(L. Hart - R. Rodgers)

3. Preciso Aprender a Ser Só
(Marcos Valle - Paulo Sérgio Valle)

4. Tamanco no Samba
(Orlanndivo - Helton Menezes)

5. Reza
(Eduardo Lobo - Ruy Guerra)

6. Batucada Surgiu
(Marcos Valle - Paulo Sérgio Valle)

7. Só Tinha que Ser com Você
(Tom Jobim - Aloysio de Oliveira)

8. Minha Namorada
(Carlos Lyra - Vinícius de Moraes)

9. Tema 3-D
(Antonio Adolfo)

10. Bye, Bye Blackbird
(R. Henderson - M. Dixon)

11. O Passarinho
(Francisco L. Feitosa Filho - Luiz Freire)

12. Peter Samba
(Durval Inácio Ferreira - Moyses David Einhorn)

13. Nega Dina [bonus]
(Zé Ketti)


1 - 12:
Antonio Adolfo: piano
Carlinhos Monjardim: baixo
Nelson Serra: bateria

participações especiais:
Paulo Moura: sax alto em "Só Tinha que Ser com Você", "O Passarinho" e "Peter Samba"
Raul de Souza: trombone de pisto em "Só Tinha que Ser com Você", "Bye, Bye Blackbird" e "Peter Samba"
Edson Maciel: trombone de vara em "Só Tinha que Ser com Você", "Minha Namorada" e "Peter Samba"
J.T. Meirelles: sax tenor em "Só Tinha que Ser com Você", "Tema 3-D" e "Peter Samba"

Eumir Deodato: arranjos em "Só Tinha que Ser com Você" e "Peter Samba"
Tom Jobim: produção da faixa "Só Tinha que Ser com Você"

produção e direção: Roberto Jorge
técnicos de gravação: Luiz Barata e A. Soluri
montagem: A. Santiago
direção geral: Paulo Rocco


13:
Antonio Adolfo: piano
Carlinhos Monjardim: baixo
Nelson Serra: bateria

produção: A. Ramalho Neto
engenheiro de gravação: Rogério Gauss
equipamento: Gravodisc, São Paulo

Do disco "4º Festival da Balança" (1966 - RCA BBL-1362), gravado ao vivo, em 27 de outubro de 1965, no E. C. Pinheiros - São Paulo - em festival promovido pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior, da Faculdade de Direito Mackenzie.

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